ENTRÁMOS na década de 90, a década do milénio. Com um desejo: o da celebração da mudança, no bom sentido dos mitos memorizados, desde o paraíso terreal da Bíblia e da cidade justa de Platão, passando pela Utopia de Thomas More ou a Cidade do Sol de Campanella, até à rêverie idílica da Ilha de Aldous Huxley. Voltamos a sonhar, nesta viragem dos tempos, com um mundo mais perfeito.
O ACARTE, pela mão da sua directora, Madalena de Azeredo Perdigão, ocupou-se com o maior empenhamento deste colóquio cujas Actas agora se divulgam. Por uma simples razão, soube ver nele o que ele era: um projecto europeu, envolvendo especialistas de 10 Universidades e representando aquele verdadeiro amor à ciência e à cultura-ao trabalho criativo na sua dimensão mais ampla-que no ACARTE, como no centro que dirijo, sempre se valorizou.
Tal obra não é fruto do acaso. Resulta dos esforços continuados da década de 80, uma década feliz em muitos dos seus aspectos.
Possa a criação, no seu largo sentido artístico e cientifico, neste momento em que os homens tanto lutam pela sua dignidade, não a vir a perder nunca a favor de ilusórios conceitos de progresso. Sem cultura não há progresso.
Foi sempre esse o significado profundo das iniciativas do ACARTE, pela mão da sua directora. E é também esse o objectivo do Gabinete de Estudos de Simbologia nas actividades que tem desenvolvido, com o apoio generoso da Fundação Gulbenkian.
O colóquio sobre a Utopia é dedicado à memória de Madalena de Azeredo Perdigão. Podemos dizer que o acompanhou até ao último momento da sua vida. Uma vida que nos deve servir de exemplo: modelou-se na esperança e no horizonte claro do futuro. É por isso que hoje aqui estamos reunidos, prestando-lhe a modesta homenagem do que foi o nosso trabalho.
YVETTE CENTENO